Uma fábula sobre o poder de transformação que a informação tem sobre a espécie humana. É assim que se pode resumir Tudo pode dar certo (“Whatever Works”, 2009), o último filme de Woody Allen. Filmada em Nova York, a película conta a história de Boris Yelnikoff, um professor de mecânica quântica que quase venceu o Nobel, tentou o um mal sucedido suicídio e não via motivo em viver até Melody SaintAnne Celestine, moça ingênua do Mississipi, cair de pára-quedas em sua vida.
Genial professor de física forçado pelas circunstâncias da vida a dar aulas de xadrez a crianças “vegetais”, como costuma chamá-las, Boris é um cético implacável. Para ele, não existe o menor sentido em esperar algo do homem, que é desonesto e mau caráter pela sua própria natureza. Por isto, não há por que ter fé, sentimento, confiança ou mesmo esperança no amor: a raça humana está condenada, está se afastando a cada segundo. Sua visão pessimista e certeira na identificação dos problemas do mundo, bastante naturalista, é o que lhe dá a certeza de que não vale a pena viver. Por acreditar na sordidez da humanidade, a vida para ele é um processo desgastante, no qual cada ano é pior que o anterior e sempre é preciso ter pelo menos um motivo para continuar vivendo.
É no total desengano que ele vive até conhecer Melody, menina doce e brutalmente ignorante, apesar de ser altamente perspicaz e sedenta pelo saber. O que seria um abrigo temporário de uma noite termina se tornando uma relação firme e marcada pelo constante aprendizado de Melody, que passa a surpreender seu mentor com suas próprias ideias e impressões da realidade. No entanto, tudo muda quando a mãe de Melody a encontra. Aí, começa uma história que conta como os relacionamentos entre os homens são transitórios e só duram enquanto há um motivo para existir. Como a Bertoleza de O Cortiço, Boris construiu suas relações com base no pouco que tinha a oferecer: no caso, seu vasto conhecimento. Quando Melody conheceu o saber puro e o livre pensar, guiada por Boris, simplesmente expandiu seus horizontes, o que lhe proporcionou a possibilidade de uma mudança radical no rumo de sua vida. Este roteiro é repetido por mais duas vezes no filme, quando primeiro sua mãe e depois seu pai chegam à “cidade grande” procurando a filha e acabam por encontrar a essência deles próprios, escondida em meio a tantos dogmas imbecis e sem a menor razão de ser.
O filme é uma ode ao já conhecido ceticismo de seu diretor. Numa evidente crítica à cultura tecnocrata e materialista predominante na atualidade, Woody Allen faz um retrato cru e fiel da essência aproveitadora do homem, além de tentar mostrar que não só o conhecimento ou a ciência podem levar a humanidade ao sucesso: o acaso sempre terá um papel fundamental no acontecimento de qualquer evento, por mais que os cientificistas tentem incessantemente provar que tudo pode ser provado por uma ciência que, todos sabem, destrói quantas verdades (sic) for preciso ao surgimento de cada “receita mágica para o sucesso” da semana.
Afinal, nesta cultura cujos deuses são a produção em massa e o consumo tresloucado, nenhuma crença individual é válida; e as impressões de mundo de cada um são formadas fora de sua própria mente. Sonhos, opiniões e aspirações terminam sendo sufocadas pelo juízo coletivo. Por fim, resta a cada um deixar sua individualidade de lado e fazer apenas o que for necessário para (sobre)viver. E esta é a grande crítica do filme: ao homem moderno, que vive um mundo inundado por valores inúteis e padrões altamente discutíveis, mas está tão embalado em seu sono que nem ao menos tem certeza se sua vida ainda tem algum sentido. E o mais impressionante: ele parece nem se incomodar com isso.

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