
Mahmoud Ahmadinejad nunca negou o holocausto.
O presidente iraniano discrimina os homossexuais, cerceia as liberdades individuais e políticas em seu país, prende arbitrariamente seus opositores, integra um governo religioso que pouco ou nada faz para avançar nos direitos humanos, na busca por diplomacia e por um mundo menos bélico, etc. e tal.
Mas, neste caso específico, ao contrário do que dizem, Ahmadinejad nunca negou o holocausto.
Eu roubei descaradamente do blog do Gustavo Chacra (embora, você sabe, todos os direitos sejam reservados ®. Eu indico veementemente a leitura do blog a quem quer entender mais sobre o Oriente Médio), trechos de duas entrevistas em que o presidente iraniano fala sobre o assunto. Ele repetiu a mesma coisa em entrevista recente a William Waack, no Jornal da Globo.
Newsweek - Em um momento em que o Irã busca restabelecer relações com o Ocidente, por que você mais uma vez nega que tenha havido o Holocausto?
Ahmadinejad – Você não acha que o Holocausto é um assunto importante?
Newsweek – Sim, foi o maior crime do século 20.
Ahmadinejad – Você acredita que o Holocausto ainda produz efeitos hoje? Você poderia me explicar como afeta os temas de hoje?
Newsweek – Não interessa o que eu penso. Interessa o que você pensa, senhor presidente.
Ahmadinejad – Eu entendo, mas gostaria de trocar nossas visões para podermos resolver um assunto aqui.
Newsweek – Está claro que houve um Holocausto. Por que você fala que não houve?
Ahmadinejad – O que digo é extremamente claro. Na Segunda Guerra, muitos crimes foram cometidos. Mais de 60 milhões de pessoas foram mortas e um número maior do que esse se tornou refugiado. A questão que eu tenho é, por que em meio de tudo isso que aconteceu na Segunda Guerra, o Holocausto é enfatizado mais do que qualquer outro [evento]? A segunda questão é, por que os políticos do Ocidente se focam tanto neste assunto? Se o evento aconteceu, onde ocorreu, quem foram os responsáveis e qual o papel dos palestinos? Que crime eles cometeram para merecer o que receberam como resultado? Qual o papel deles no Holocausto? Nós vemos o Holocausto como um pretexto para cometer genocídio contra o povo palestino.
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Associated Press – (Pergunta sobre o Holocausto)
Ahmadinejad – Em relação à questão do povo judeu e de seus sentimentos, tenho que dizer que nossa opinião nesta questão é diferente da questão do sionismo. O Sionismo é um partido político. Mas o povo judeu, como muitos outros povos, seguem um profeta divino. Eu fundamentalmente levanto duas questões em relação ao Holocausto e posso perguntá-las de novo para você. A primeira questão é que, assumindo que o Holocausto tenha ocorrido, quando aconteceu e quem foram os responsáveis? A segunda pergunta é como exatamente isso se relaciona com a questão palestina?
Associated Press – Ocorreu na Europa e foi realizado por Adolf Hitler e um grupo de compatriotas.
Ahmadinejad – Então, gostaria de saber como isso se relaciona com os palestinos e a questão palestina. Se isso aconteceu na Europa pelas mãos de governos europeus, por que exatamente o povo palestino precisa pagar por isso?
Associated Press – Você acredita que o Holocausto ocorreu?
Ahmadinejad – Na minha opinião, não é a primeira parte da questão que interessa, mas o resultado desta questão. A primeira metade se relaciona à história. A segunda parte, se relaciona a assuntos do mundo contemporâneo. Se em sua opinião alguma coisa ocorreu na Europa pelas mãos de governos europeus, podemos buscar o remédio em outros territórios? O povo palestino precisa pagar ao ficar refugiado e por que? Por meio da ocupação de suas terras e por que? Temos questões aqui também. Nós nos opomos ao assassinato de pessoas em qualquer lugar. Uma regra fundamental é que nos opomos aos assassinatos na Segunda Guerra, em qualquer lugar. Sabemos que mais de 60 milhões de pessoas morreram na Segunda Guerra. Cada uma delas eram seres humanos. Suas vidas são importantes, não interessando se são muçulmanos, judeus ou cristãos. Não faz diferença. Eu não estava lá 60 anos atrás, nós não estávamos lá, mas estamos aqui agora e podemos fazer algo. E vemos palestinos sendo mortos. Acho que hoje nossa função seja interromper isso. Caso o Holocausto seja usado como pretexto para o povo palestino, então, inevitavelmente, também é necessário discutir o Holocausto.
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As questões básicas que ele coloca estão muito claras e pertinentes:
“Por que em meio de tudo isso que aconteceu na Segunda Guerra, o Holocausto é enfatizado mais do que qualquer outro [evento]? A segunda questão é, por que os políticos do Ocidente se focam tanto neste assunto? Se o evento aconteceu, onde ocorreu, quem foram os responsáveis e qual o papel dos palestinos?”
Sessenta anos depois, ainda há uma verdadeira indústria do holocausto.
Eu ainda estou tentando entender esse pessoal que saiu às ruas com bandeiras de Israel para protestar contra a vinda de Ahmadinejad ao Brasil. É por causa da suposta negação do Holocausto?
Por que não fizeram o mesmo quando Shimon Peres pisou aqui na semana passada?
É lícito e fácil protestar contra o verborrágico Ahmadinejad, ele que coloca tantas questões indesejáveis ao mundo Ocidental e à vida moderna.
Mas confesso que gostaria de ver essas mesmas pessoas saírem às ruas para protestar contra a vinda do presidente de Israel, sabedoras que são de que as condições de vida que o Estado israelense impõe há décadas ao povo palestino – da Faixa de Gaza, sobretudo – tem tantas relações com o triste Holocausto de suas histórias.
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Nota de O Baculejo: Confesso que nunca havia lido nenhum texto explicando melhor as declarações do polêmico líder iraniano Mahmoud Ahmadinejad a respeito do Holocausto. E o que notei foi uma análise bastante crítica da abordagem majoritariamente utilizada quando se trata do assunto. Ahmadinejad foi ao cerne da questão: por que, em meio à morte de 60 milhões de pessoas, a morte de 6 milhões de judeus merece tanto destaque, quando a morte dos outros 54 milhões de pessoas foi tão desnecessária e fútil quanto a dos israelitas? E pior: por que um povo que nada tem a ver com a história é obrigado a "pagar a conta" e ainda sofrer um extermínio talvez até mais cruel? Enfim, a única certeza é que essas perguntas jamais nos serão respondidas dentro do contexto político em que vivemos, no qual Ahmadinejad é praticamente a encarnação de Satanás aos olhos do mundo. No entanto, o que a realidade nos mostra é que a história não é feita só por vilões ou mocinhos: entre o preto e o branco, há vários tons de cinza.

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