segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Julian Assange é preso e a Veja dá "direito de resposta" ao embaixador americano

As duas faces de Julian Assange: inimigo do Império; amigo íntimo da Liberdade


Hoje à tarde, passei algum tempo dando uma olhada na revista Veja desta semana, a que traz Julian Assange na capa com a manchete "Homem-bomba". Tenho o hábito de ler semanalmente esta digníssima revista, para me informar das opiniões que correm na grande mídia nacional ou, quando isso não é possível, tamanha a propaganda implícita, folheio-a apenas para dar algumas risadas.

Logo nas primeiras páginas da edição desta semana, deparo-me com uma entrevista/propaganda do embaixador americano no Brasil, Thomas Shannon, o sucessor de Clifford Sobel na função - aquele mesmo, protagonista dos escândalos com nosso ministro Nelson Jobim. Admito que fiquei um pouco espantado com a escolha do entrevistado, que terminou funcionando praticamente como um "direito de resposta" aos acontecimentos provocados pelo Cablegate da WikiLeaks, que expôs a diplomacia americana ao ridículo de suas próprias políticas egocêntricas e unilaterais. Comecei a ler a entrevista/propaganda mesmo assim, e logo na primeira pergunta, deparo-me não com uma pergunta séria e crítica, mas com uma "assistência", daquelas que, no futebol, deixam o atacante na cara do gol:

Julian Assange, do WikiLeaks, foi preso na Inglaterra. Isso desperta no senhor algum tipo de sentimento?

Shannon: O destino dele está a cargo da polícia e dos tribunais, como deve ser. Destaco, no entanto, que a prisão não está relacionada aos vazamentos, mas a outras acusações.

Cara de pau na acepção mais pura do termo. Prisão relacionada a um processo de "estupro" já arquivado e misteriosamente reaberto, contrariando até mesmo o princípio da reformatio in pejus, um dos pressupostos fundamentais do Direito? Só sendo muito mal informado ou muito cego para não verificar que a declaração do embaixador simplesmente não tem nenhum compromisso com a verdade dos fatos. No entanto, era só o começo:

O senhor acredita que, pela alta octanagem dos temas, pelo volume e pela abrangência dos relatos, a publicação dos despachos secretos vai mudar a natureza da atividade diplomática?

Shannon: Não creio. A secretária Hillary Clinton pôs a questão em uma perspectiva que não pode ser minimizada. Ela disse que os telegramas tornados públicos não são a expressão definitiva de nossa política. Os documentos são apenas parte de um processo muito mais complexo de formular políticas e implementar a diplomacia. São como fotografias, instantâneos de determinadas situações e, portanto, insuficientes para fazer uma narrativa crível e racional do desenrolar de eventos reais. Algumas imagens são escandalosas e outras banais. Mas, fora do contexto, é difícil entender o significado de cada uma delas. O que mais chamou a atenção do público nos vazamentos foi a exposição da confidencialidade nas comunicações.

Mentira, embaixador. Mais uma. O que mais chamou a atenção do público não foi apenas a exposição da confidencialidade nas comunicações, como o senhor falou. Segredos existem em todos os ramos, não só na diplomacia. O que chamou atenção de verdade foram as práticas criminosas e desrespeitosas à soberania das nações, aos tratados e convenções internacionais. Todas as imagens são tão fortes que, mesmo tratando de assuntos do passado, já resolvidos, ainda chocam, tamanha a intervenção americana na política interna de países como Honduras, Iraque e Afeganistão, só para ficar em exemplos óbvios.

O WikiLeaks não acabou prestando um serviço ao mostrar que o que parecia ser uma obsessão americana com um Irã armado com bombas atômicas é, na verdade, uma preocupação de todos os países do Oriente Médio?

Shannon: Não comento o conteúdo de telegramas específicos, mas essa preocupação já era bem conhecida pelos diplomatas que servem no Oriente Médio.

Os Estados Unidos têm uma obsessão com as "bombas atômicas" (entre aspas, mesmo) iranianas assim como também tinham uma obsessão pelas "armas de destruição em massa" iraquianas. A história, todo mundo já conhece...

As relações entre o Brasil e os Estados Unidos foram prejudicadas de alguma forma pelos vazamentos?

Shannon: Não. Primeiro, porque o governo brasileiro reagiu de forma positiva, saudável e serena. Segundo, porque o conteúdo dos telegramas diplomáticos tornados públicos mostrou a amplitude das relações entre os dois países. Se havia dúvida sobre isso entre o público mais amplo, os telegramas divulgados deixaram claro que nossa conversa é mantida dentro dos parâmetros mais recomendáveis. Na questão do antiterrorismo, o Brasil estabelece com os Estados Unidos um diálogo e uma cooperação excelentes, pois vê o problema como transnacional. Se seguirmos trabalhando assim, haverá benefícios para os dois países e para toda a região.

"Dentro dos parâmetros mais recomendáveis". Certo. Fofocar com o Ministro da Defesa a respeito do tumor de Evo Morales, espionar ministros e parlamentares brasileiros... São essas as atitudes recomendáveis? Ainda nessa resposta, panos quentes: nos documentos vazados, os EUA acusam o Brasil de receber "terroristas" muçulmanos em Foz do Iguaçu. Agora, na frente de todo mundo, elogia nossa "cooperação"? Enfim, seguindo:

Vazamentos não são propriamente novidade no mundo oficial. Este atual tem alguma especificidade?

Shannon: A quantidade de documentos vazados é inédita. O uso da internet para divulgá-los rapidamente por todo o mundo também é algo novo. Mas talvez a mais extraordinária circunstância que envolve os vazamentos seja o fato de eles terem sido promovidos por uma organização não governamental. Não estamos lidando com um caso de espionagem comum.

O senhor identifica um objetivo maior do WikiLeaks?

Shannon: Não posso precisar quais seriam os motivos reais. Mas posso dizer que a maneira como o WikiLeaks está divulgando os telegramas indica a intenção clara de causar danos nas relações internacionais e diminuir o grau de entendimento entre os países. Não deixa de ser irônico, porém, o fato de que o WikiLeaks, que tenta se apresentar como uma fonte nova de informação e redefinir o conceito de transparência, esteja dependendo da mídia tradicional para explicar as mensagens diplomáticas. Sem os jornais, as revistas e as redes de televisão tradicionais, os vazamentos não teriam produzido efeito.

Quanta audácia! Supor que vazamentos deste porte não causariam nenhum efeito só pode ser ou pretensão, ou blefe: evidentemente que o teor bombástico dos cables teria sido explorado, na pior das hipóteses, pelas mídias livres da internet e chegaria, inevitavelmente, aos grandes portais e aos noticiários da televisão. Claro, eles tiveram um papel importante na massificação das informações, mas creditar todo o barulho a eles nada mais é do que ignorar as novas condições de comunicação proporcionadas pela web 2.0. Falando nisso, nota-se uma clara bajulação às mídias tradicionais, que é, como se sabe, um dos maiores alicerces de sustentação da sociedade burguesa. Reparem também que o diplomata ainda teve a cara de pau de citar o termo "espionagem", quando já é público e notório que não se trata de um caso de espionagem: Julian Assange recebia as informações de whistle blowers, pessoas que trabalham nas instituições e concedem tais informações confidenciais.

Depois deste início recheado de panos quentes e declarações omissas e/ou mentirosas, começa uma entrevista opaca, cordial e fútil, falando da emissão de vistos americanos no Brasil, do papel brasileiro no atual cenário geopolítico - aqui, os elogios foram muitos; a sinceridade, nem tanto - e da eventual visita de Dilma Rousseff à Casa Branca. O leitor deve estar se perguntando: e as perguntas de verdade? E os esclarecimentos sobre as críticas duras à orientação política do Itamaraty? E a verdade sobre o golpe em Honduras, sobre o golpe de 2002 na Venezuela? Nada disso foi explicado na entrevista/propaganda, já que estes documentos estão "fora de contexto" e têm como intuito "desestabilizar as relações internacionais", como disse o embaixador.

Esta análise é um retrato do que é nossa grande mídia: um espaço para defesa de seus interesses próprios e dos direitos daqueles que estão no poder, e tremem só de pensar que alguma coisa pode mudar com os constrangimentos causados pelo WikiLeaks de Julian Assange, que a esta altura já virou mártir da luta pela liberdade de informação plena.

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