
*Reproduzo texto de Bruno Huberman e Ricardo Carvalho, publicado no site da CartaCapital.
A definição, na quinta-feira 2, da Rússia e do Catar como sedes das Copas do Mundo de 2018 e 2022, respectivamente, aconteceu em meio a uma série de novas denúncias de corrupção contra cartolas do alto escalão da Fifa. Em novembro, dois integrantes do Comitê Executivo da entidade, grupo responsável pela escolha dos países vencedores, foram afastados por tentar vender seus votos. Já na segunda-feira 29 de novembro, às vésperas da decisão, outras suspeitas de suborno vieram a público. Desta vez, um dos personagens é brasileiro. Um doce para quem adivinhar seu nome. Isso mesmo: Ricardo Teixeira, o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e do Comitê Organizador Local (COL) para a Copa do Mundo de 2014.
Uma reportagem levada ao ar pela rede britânica BBC revelou uma lista secreta com 175 pagamentos de propina feitos pela empresa suíça de marketing esportivo ISL, num total de mais de 100 milhões de dólares. Segundo a planilha, Teixeira teria recebido cerca de 9,5 milhões de dólares entre 1992 e 1997 por meio da empresa de fachada Sanud, com base no paraíso fiscal de Liechtenstein.
A ligação da Sanud com Teixeira tinha sido investigada pela CPI do Futebol, finalizada em 2001, e denunciada pelo Ministério Público (MP), em processo que corre na Justiça do Rio de Janeiro. Para o procurador Marcelo de Figueiredo Freire, responsável pela denúncia, a Sanud é "uma empresa laranja constituída no exterior apenas para ocultar o verdadeiro dono dos recursos, Ricardo Teixeira". Os repasses em forma de empréstimo da Sanud à RLJ, negócio que tem como sócios Teixeira, sua esposa e a própria Sanud, chegaram, segundo apurou a CPI, a cerca de 2,9 milhões de reais. "Teixeira montou uma sofisticada operação de lavagem de dinheiro", afirma Freire.
“É mentira. Como nós deixamos muito claro no programa, o envolvimento de representantes da Fifa com suborno nunca foi investigado. Os repasses foram mencionados como uso impróprio de dinheiro da ISL, porque os executivos estavam pagando propinas em vez das contas da companhia”, rebate Jennings. “O que Blatter não mencionou foi uma segunda investigação em que cartolas da entidade receberam propina, mas por um acordo aceitaram devolver o dinheiro.” O escocês refere-se a outro julgamento sobre a falência da ISL finalizado em junho deste ano. Nele foi decidido que representantes da Fifa teriam de devolver 3,5 milhões de libras por ações de marketing negociadas, mas nunca realizadas. Os nomes desses membros foram mantidos em segredo, no entanto, a Fifa não abriu nenhuma sindicância para apurar o caso. “Quando você devolve o dinheiro, está admitindo que o conseguiu de maneira ilegal”, completa o jornalista.
Outro que teria aparecido na lista de subornos é o ex-presidente da Fifa João Havelange. O documento mostra 1 milhão de dólares destinados a um item denominado “garantia JH”. Havelange já havia sido centro de outro escândalo, quando, em 1998, 1 milhão de francos suíços da ISL caíram por engano na conta da Fifa, quando o destino seria a conta pessoal do cartola, o que causou pânico entre os dirigentes da organização. “A questão não é só que Havelange recebeu dinheiro, mas também que Blatter sabia de tudo isso há 12 anos e não fez nada”, conclui Jennings.
Todos os citados na BBC foram procurados por Jennings, mas nenhum apresentou respostas às acusações. Na quarta-feira 1º, Hayatou defendeu-se ao dizer que o dinheiro mencionado na reportagem foi repassado à CAF para as comemorações dos 40 anos da entidade. “O que a BBC fez foi dizer que eu fui subornado agora com algo que aconteceu há 16 anos. Era para o 40º aniversário da CAF. Naquela época, a ISL era patrocinadora da CAF e deu o dinheiro para a CAF, não para mim. E o Comitê Executivo da CAF aceitou.” Hayatou disse que pretende processar a emissora por calúnia.
O presidente Ricardo Teixeira, por meio de sua assessoria de imprensa, notificou que não comentará o caso. Esse escândalo vem na esteira de outro, quando foi revelado pelo jornal Lance! que Teixeira, por meio de uma manobra jurídica, poderá ter o controle de 100% dos lucros do Comitê Organizador da Copa do Mundo no Brasil. O contrato social da entidade tem como sócios a CBF, com 99,99% de participação, e seu presidente, com 0,01%. Contudo, uma cláusula estabelece que a distribuição dos lucros poderá ser feita sem respeitar as proporções de participação. É o consagrado estilo Teixeira.

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